{"id":3585,"date":"2022-06-17T11:05:17","date_gmt":"2022-06-17T18:05:17","guid":{"rendered":"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/huellas-del-petroleo\/?page_id=3585"},"modified":"2022-07-19T09:19:14","modified_gmt":"2022-07-19T16:19:14","slug":"um-legado-de-promessas-quebradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/pt\/um-legado-de-promessas-quebradas\/","title":{"rendered":"Um legado de promessas quebradas"},"content":{"rendered":"<div class=\"gb-container gb-container-2ac45a36 alignfull\" id=\"header-part-1\"><div class=\"gb-inside-container\">\n\n<div class=\"header-part2-container\">\n  \n  <div class=\"bg-container\"><\/div>\n  <div class=\"fg-container\"><\/div>\n\n  <div class=\"title-effect\">\n      <h1>Um legado de<br>promessas quebradas<\/h1>\n\n   \n  <\/div>\n  <!--arrow down-->\n  <a class=\"arrow bounce smooth-scroll\" href=\"#scrollDown\"><i class=\"fa fa-angle-down fa-2x\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/a>\n<\/div>\n<!--END arrow down-->\n\n<\/div><\/div>\n\n<div class=\"gb-container gb-container-ddb5b268 alignfull\" id=\"figcaption\"><div class=\"gb-inside-container\">\n\n<div class=\"wp-block-image\" id=\"scrollDown\">\n<figcaption>Um homem se encontra em meio \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o encharcada de \u00f3leo ap\u00f3s um derramamento de petr\u00f3leo na comunidade de San Pedro, no baixo Rio Mara\u00f1\u00f3n. Foto: Ginebra Pe\u00f1a<\/figcaption>\n<\/div>\n\n<\/div><\/div>\n\n<div class=\"gb-container gb-container-933f5e6d\" id=\"byline\"><div class=\"gb-inside-container\">\n\n<!--BYLINE-->\n<div class=\"tooltip-container\">\n    <p>Por <span class=\"fraser-tooltip-port\">Barbara Fraser<\/span> <span>e<\/span> <span class=\"marilez-tooltip-port\">Marilez Tello<\/span> <\/p>\n<\/div>\n<!--END BYLINE-->\n\n<\/div><\/div>\n\n<div class=\"gb-container gb-container-93180f9a\" id=\"share\"><div class=\"gb-inside-container\">\n\n<div class=\"share-wrapper\">\n\n  <div class=\"title\">\n    <p>Compartilhar:<\/p>\n  <\/div>\n  \n    <div class=\"container fb\">\n  <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sharer\/sharer.php?u=https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/en\/oil-spills-trigger-a-cascade-of-consequences\/\"><span><i class=\"fab fa-facebook-f fa-lg\"><\/i><\/span><\/a>\n  \n    <\/div>\n    <div class=\"container tw\">\n    <a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?url=https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/en\/oil-spills-trigger-a-cascade-of-consequences\/\"><span><i class=\"fab fa-twitter fa-lg\"><\/i><\/span><\/a>\n   <\/div>\n   \n  <\/div>\n\n<\/div><\/div>\n\n<div class=\"gb-container gb-container-dbfaf21a\" id=\"story-1\"><div class=\"gb-inside-container\">\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Lindaura Cariajano Chuje se lan\u00e7ou \u00e0 margem do rio e avan\u00e7ou pela floresta seguindo uma trilha que s\u00f3 ela podia ver. Um passo \u00e0 sua frente, um jovem com um fac\u00e3o desobstru\u00eda o caminho, enquanto ela dava as instru\u00e7\u00f5es: Um pouco \u00e0 esquerda, um pouco \u00e0 direita, agora em frente. Era uma manh\u00e3 abafada de setembro de 2018 e os \u00fanicos sons eram o do zumbido r\u00edtmico das cigarras e o ru\u00eddo abafado do fac\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos minutos depois, houve uma mudan\u00e7a sutil no solo macio, pois o terreno se tornou irregular, com depress\u00f5es muito leves. Cariajano fez uma pausa, descansando a m\u00e3o sobre uma pequena l\u00e1pide redonda de madeira quase impercept\u00edvel em meio \u00e0 folhagem tropical.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esta \u00e9 a minha primeira filhinha&#8221;, disse ela.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Lindaura-Chuje-en-cementerio.jpg\" alt=\"Lindaura-Chuje-en-cementerio\" class=\"wp-image-2671\"\/><figcaption>Lindaura Cariajano Chuje descansa as m\u00e3os sobre a l\u00e1pide simples do t\u00famulo de sua filhinha no cemit\u00e9rio pr\u00f3ximo \u00e0 aldeia Kichwa de Vista Alegre, no rio Tigre, no Peru. Foto: Barbara Fraser<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Cariajano era uma jovem m\u00e3e quando o riacho que fornecia \u00e1gua e peixes para ela e outros moradores de Vista Alegre, uma comunidade ind\u00edgena Kichwa ao longo do Rio Tigre, no nordeste do Peru, se tornou negro. Em algum lugarrio acima,um po\u00e7o ou um cano de um dos mais novos campos de petr\u00f3leo do Peru vazou nas imedia\u00e7\u00f5es da floresta e nos cursos d&#8217;\u00e1gua e o petr\u00f3leo foi levadocorrenteza abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o muito tempo depois, as pessoas da aldeia come\u00e7aram a adoecer com c\u00f3licas estomacais. Muitas morreram, contorcendo-se de dor e vomitando sangue. Entre elas estava a primeira filha de Cariajano, Lisette, de 6 meses. Mas n\u00e3o estava sozinha. Acenando com o bra\u00e7o em um arco, Cariajano gesticulou para o cemit\u00e9rio tomado pela vegeta\u00e7\u00e3o. &#8220;Todas as crian\u00e7as est\u00e3o aqui&#8221;, disse ela.<\/p>\n\n\n\n<p>O Rio Tigre serpenteia o maior campo de petr\u00f3leo do Peru, conhecido agora como Bloco 192 [Lote 192], em uma regi\u00e3o habitada em grande parte por ind\u00edgenas Quechua, Achuar, Kichwa, Kukama e Urarina. Quando os prospectores descobriram petr\u00f3leo ali em 1971, funcion\u00e1rios do governo prometeram que a ind\u00fastria traria desenvolvimento para uma regi\u00e3o que definhava desde o colapso do boom da borracha meio s\u00e9culo antes.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"magnific-side-container\">\n    <a class=\"image-popup-vertical-fit\" href=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Revista-Proceso-Velasco.jpg\" title=\"\">\n        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Revista-Proceso-Velasco.jpg\" width=\"400\" height=\"auto\">\n        <figcaption>Quando come\u00e7ou a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no nordeste do Peru, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com o Equador, a\n            Revista Proceso cobriu a visita do ent\u00e3o presidente Juan Velasco Alvarado \u00e0 regi\u00e3o, que disse que o setor\n            traria desenvolvimento para a Amaz\u00f4nia peruana. Foto: Ginebra Pe\u00f1a<\/figcaption>\n    <\/a>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Mas 50 anos de produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo deixaram feridas profundas nas comunidades e na terra. Empresas mal regulamentadas desmataram florestas para abrir caminho aos po\u00e7os de petr\u00f3leo e a uma rede de oleodutos que os conectam a instala\u00e7\u00f5es de armazenamento na regi\u00e3o e na costa, a mais de 800 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Os derramamentos de \u00f3leoeram ignorados, enquanto a \u00e1gua produzida \u2014 a \u00e1gua quente, salgada e carregada de metais extra\u00edda dos po\u00e7os com o petr\u00f3leo \u2014 era descartada em riachos ou no solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste canto remoto do Peru, onde ainda n\u00e3o h\u00e1 estradas, exceto as constru\u00eddas para servir os po\u00e7os de petr\u00f3leo, a maioria das pessoas ainda bebe \u00e1gua n\u00e3o tratada de rios ou riachos. Quando o rio ficava negro ou a \u00e1gua tinha gosto salgado, aqueles que podiam cavavam po\u00e7os ou caminhavam at\u00e9 afluentes mais limpos. Aqueles que n\u00e3o tinham escolha afastavam a mancha oleosa e tiravam a \u00e1gua que parecia limpa, sem saber que ainda continha hidrocarbonetos, metais pesados \u200b\u200be outros t\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o Peru come\u00e7ou a implementar uma legisla\u00e7\u00e3o ambiental mais dura na d\u00e9cada de 1990, danos irrevers\u00edveis j\u00e1 tinham sido causados. \u00c0 medida que os membros da comunidade ind\u00edgena passaram a entendero risco representado pelos res\u00edduos t\u00f3xicos provenientes das opera\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, come\u00e7aram a se organizar para exigir \u00e1gua pot\u00e1vel, assist\u00eancia m\u00e9dica, limpeza dos locais polu\u00eddos e restaura\u00e7\u00e3o dos ecossistemas envenenados. \u00c0quela altura, por\u00e9m, a rela\u00e7\u00e3o deles com as petrol\u00edferas era complicada, pois a ind\u00fastria geradora de empregos e de alguns outros benef\u00edcios era a mesma que tinha contaminado suas terras, seus cursos d&#8217;\u00e1gua, peixes e ca\u00e7a e causado danos ainda desconhecidos \u00e0 sua sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a ind\u00fastria declina, com os campos de petr\u00f3leo se esgotando e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas afastando o mundo dos combust\u00edveis f\u00f3sseis em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 energia renov\u00e1vel, as comunidades nos campos de petr\u00f3leo amaz\u00f4nicos do Peru ainda carecem de \u00e1gua pot\u00e1vel, sistemas de saneamento, eletricidade, assist\u00eancia m\u00e9dica e escolas decentes. Com a guerra na Ucr\u00e2nia elevando os pre\u00e7os do petr\u00f3leo a n\u00edveis recordes, funcion\u00e1rios do governo tentam dar uma nova vida ao setor. E embora um <a href=\"https:\/\/www.undp.org\/es\/peru\/publications\/eti-del-ex-lote-1ab\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">estudo recente do Bloco 1AB<\/a>, como 192 era originalmente conhecido, e <a href=\"https:\/\/www.undp.org\/es\/peru\/publications\/estudio-t%C3%A9cnico-independiente-del-lote-8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">outro do vizinho Bloco 8<\/a>, tenham estabelecido as bases para a repara\u00e7\u00e3o futura dos locais polu\u00eddos, esse trabalho \u2013 se realmente executado \u2013 levaria d\u00e9cadas e custaria bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, apesar do futuro incerto, o tempo n\u00e3o apagar\u00e1 a lembran\u00e7a de uma ind\u00fastria que deixou uma marca duradoura na regi\u00e3o e em seu povo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"gb-headline gb-headline-3f1c73ff gb-headline-text\"><strong>Primeiros sinais de mudan\u00e7a<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Lindaura Cariajano de oito anos e outras crian\u00e7as estavam nadando quando ouviram estranhos se aproximando pela floresta. Elas fugiram em p\u00e2nico, deixando para tr\u00e1s at\u00e9 as suas roupas. Os homens lhes disseram: \u201cEstamos limpando o terreno. Estamos procurando petr\u00f3leo\u201d, lembrou ela. \u201cMinha amiga me perguntou: &#8216;O que \u00e9 petr\u00f3leo?&#8217;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo depois, mais<em> gringos<\/em> chegaram em um helic\u00f3ptero \u2013 era a primeira vez que a comunidade via uma m\u00e1quina dessas. Georgina Vargas, parteira de Vista Alegre, lembrou-se de se refugiar em sua casa, onde se escondeu em uma pilha de roupas. Mas seu marido, que j\u00e1 tinha vivido na distante plan\u00edcie do Rio Amazonas, n\u00e3o se perturbou. Ele falou para n\u00e3o ter medo e permitiu que os intrusos acampassem em seu jardim.<\/p>\n\n\n\n<p>Cariajano lembrou-se dos adultos se encontrando e decidindo permitir que os homens constru\u00edssem seu campo de trabalho na beirada comunidade. Os trabalhadores ofereciam guloseimas \u00e0s crian\u00e7as, como bolachas e geleias \u2013 itens que nunca tinham visto antes \u2013 ou lhes davam a comida que sobrava das suas refei\u00e7\u00f5es. A m\u00e3e de Cariajano advertiu seus filhos para n\u00e3o comerem a comida estranha, dizendo estar envenenada e que havia rumores de que os forasteiros eram<em> pelacaras<\/em>, criaturas que tiravam a pele do rosto de uma pessoa e sugavam sua gordura corporal, que na Amaz\u00f4nia s\u00e3o muitas vezes associados aos estrangeiros de pele clara.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais perturbadores que fossem, esses encontros iniciais mal davam um sinal das mudan\u00e7as dr\u00e1sticas que se estenderiam rapidamente pela regi\u00e3o bastante isolada, que inclu\u00eda as bacias hidrogr\u00e1ficas de Pastaza, Corrientes, Tigre, Chambira e Mara\u00f1\u00f3n, \u00e0 medida que milhares de trabalhadores se reuniam para desenvolver o que se tornaria dois dos campos de petr\u00f3leo mais produtivos do Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro vieram os <em>trocheros<\/em>, que desobstru\u00edram as trilhas ou <em>trochas<\/em> para a <a href=\"https:\/\/earthsky.org\/earth\/bob-hardage-using-seismic-technologies-in-oil-and-gas-exploration\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">explora\u00e7\u00e3o s\u00edsmica<\/a>. Os moradores ouviram explos\u00f5es e sentiam as vibra\u00e7\u00f5es, enquanto os trabalhadores perfuravam e disparavam cargas em intervalos de 100 metros ao longo dos caminhos, criando ondas de choque que permitiam aos engenheiros mapear os dep\u00f3sitos de petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n<div class=\"gb-container gb-container-fb0b4457 alignfull\"><div class=\"gb-inside-container\">\n<div class=\"gb-container gb-container-a6287116 alignfull\"><div class=\"gb-inside-container\"><\/div><\/div>\n\n<div class=\"gb-container gb-container-71c8f80e alignfull\"><div class=\"gb-inside-container\">\n\n<figcaption>Um homem pesca entre os pilares de uma plataforma de petr\u00f3leo abandonada perto da comunidade de Cuninico, no Rio Mara\u00f1\u00f3n, na regi\u00e3o de Loreto, no nordeste do Peru Foto: Ginebra Pe\u00f1a<\/figcaption>\n\n<\/div><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n<p>Os homens passaram semanas desobstruindo as trilhas com v\u00e1rios metros de largura ou mais pela densa vegeta\u00e7\u00e3o tropical e limpando \u00e1reas maiores de tempos em tempos para permitir que os helic\u00f3pteros pousassem. Eles eram acompanhados por uma \u201cmaquinaria ensurdecedora, composta por furadeiras port\u00e1teis, geradores de eletricidade, compressores de ar, motosserras, motores de popa, ve\u00edculos terrestres e helic\u00f3pteros, um barulho constante\u201d, escreveu a advogada de direitos ind\u00edgenas Lily la Torre em seu livro <em>S\u00f3 queremos viver em paz!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aldeias inteiras foram deslocadas para dar lugar aos campos de trabalhadores e os<em> trocheros<\/em>, ao lan\u00e7arem aslinhas s\u00edsmicas, \u00e0s vezes cortavam diretamente uma comunidade. Nas duas d\u00e9cadas seguintes, mais de 10.000 quil\u00f4metros de linhas s\u00edsmicas foram limpos no campo de petr\u00f3leo conhecido primeiro como Bloco 1AB e mais tarde como Bloco 192, de responsabilidade da Occidental Petroleum, e mais de 5.000 quil\u00f4metros no vizinho Bloco 8 e 8X, operado pela empresa estatal Petroper\u00fa.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"gb-headline gb-headline-343de566 gb-headline-text\"><strong>Trabalho endividado e rios t\u00f3xicos<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A ruptura trouxe uma cascata de mudan\u00e7as para as aldeias Quechua, Achuar, Kichwa, Kukama e Urarina ao longo dos rios, de acordo com a antrop\u00f3loga equatoriana Mar\u00eda Antonieta Guzm\u00e1n-Gonz\u00e1lez, que estudou os impactos da ind\u00fastria do petr\u00f3leo, especialmente na parte superior do Rio Tigre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA chegada da petrol\u00edfera significou a vinda de muitas pessoas \u2013 de muitos trabalhadores, mas tamb\u00e9m de comerciantes, que se estabeleceram na \u00e1rea, al\u00e9m de vendedores\u201d, disse ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs comerciantes e madeireiros j\u00e1 tinham visitado essas bacias hidrogr\u00e1ficas, mas com a chegada das empresas exploradoras de petr\u00f3leo essas atividades se intensificaram\u201d, acrescentou.<\/p>\n\n\n\n<!--MAP 2-->\n<div class=\"magnific-side-container\">\n    <a class=\"image-popup-vertical-fit\" href=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/MAPA2_portugues.jpg\" title=\"\">\n        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/MAPA2_portugues.jpg\" width=\"400\" height=\"auto\">\n        <figcaption>Gr\u00e1fico: Ferm\u00edn Garc\u00eda<\/figcaption>\n    <\/a>\n<\/div>&#8211;&gt;\n\n\n\n<p>Inicialmente, as empresas n\u00e3o contratavam ind\u00edgenas como trabalhadores, mas os comerciantes pagavam aos membros da comunidade para lhes fornecerem carne de ca\u00e7a e outros produtos, sob um sistema de trabalho por d\u00edvida que existia ao menos desde o boom da borracha que varreu a Amaz\u00f4nia ocidental no in\u00edcio do s\u00e9culo 20.<\/p>\n\n\n\n<p>O comerciante equiparia o ca\u00e7ador com suprimentos, que seriam descontados de seu pagamento quando entregasse as mercadorias acordadas. Com o polegar do comerciante na balan\u00e7a, no entanto, o ca\u00e7ador muitas vezes acabava com uma d\u00edvida infinita. A combina\u00e7\u00e3o entre o barulho de barcos, helic\u00f3pteros, constru\u00e7\u00e3o e cargas s\u00edsmicas, juntamente com a derrubada da floresta para acampamentos e novas aldeias para acomodar o afluxo de colonos, fez com que os animais de ca\u00e7a fugissem das regi\u00f5es que tradicionalmente eram as zonas de ca\u00e7a das comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A ca\u00e7a e a pesca para alimentar tanta gente tamb\u00e9m reduziram a popula\u00e7\u00e3o de animais selvagens, enquanto os madeireiros chegaram com as empresas aproveitando a oportunidade para cortar e vender \u00e1rvores como o mogno e o cedro, extraindo da floresta as grandes \u00e1rvores de crescimento lento que produziam a madeira mais valiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por toda Bacia Amaz\u00f4nica, a vida gira em torno dos rios. Em muitas aldeias, as casas est\u00e3o dispostas em fileiras ao longo da margem do rio e, embora n\u00e3o haja cercas, entende-se que a \u00e1rea em frente a cada casa \u00e9 o porto da fam\u00edlia &#8211; local onde amarram sua canoa e realizam as tarefas di\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>O dia geralmente come\u00e7a cedo com as crian\u00e7as pegando baldes de \u00e1gua para cozinhar e acaba com a fam\u00edlia tomando banho no rio quando o trabalho do dia termina. Entre esse per\u00edodo, as mulheres lavam roupas, limpam os peixes e os beb\u00eas em pequenas jangadas. Na maioria das comunidades, as pessoas pescam nos lagos pr\u00f3ximos e as crian\u00e7as brincam na \u00e1gua no calor do dia. Rios e riachos s\u00e3o a \u00fanica fonte de \u00e1gua para beber e cozinhar.<\/p>\n\n\n\n<!-- SIDEBAR -->\n<div class=\"inline-popups\" href=\"#test-popup\" data-effect=\"mfp-zoom-out\">\n\n    <div class=\"image\">\n        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Urarinas-1.jpg\" alt=\"\">\n    <\/div>\n\n    <div class=\"text\">\n        <h4>Campos de petr\u00f3leo envelhecidos, res\u00edduos t\u00f3xicos<\/h4>\n        <p>Um derramamento de \u00f3leo em 2014 na comunidade ind\u00edgena Kukama de Cuninico, no rio Mara\u00f1\u00f3n, assim como em mais de uma d\u00fazia\n            de outros desde ent\u00e3o, vieram do Oleoduto do Norte Peruano, constru\u00eddo na d\u00e9cada de 1970 para transportar\n            petr\u00f3leo&#8230;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/plus-sign-logo.png\" alt=\"\" width=\"20\" height=\"20\"><\/p>\n    <\/div>\n\n<\/div>\n\n<!-- Popup itself -->\n<div id=\"test-popup\" class=\"white-popup mfp-with-anim mfp-hide\">\n    <div class=\"container\">\n        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/oleoducto-en-Nueva-Union.jpg\" alt=\"oleoducto-en-Nueva-Union\">\n\n        <div class=\"wp-block-image\">\n            <figcaption>Um oleoduto cruza o Rio Chambira na comunidade Urarina de Nueva Uni\u00f3n, no Bloco 8, onde\n                ocorreram\n                centenas de derramamentos de petr\u00f3leo desde o in\u00edcio da produ\u00e7\u00e3o no campo petrol\u00edfero. Foto: Ginebra\n                Pe\u00f1a\n            <\/figcaption>\n        <\/div>\n\n        <div class=\"text\">\n            <h3>Campos de petr\u00f3leo envelhecidos, res\u00edduos t\u00f3xicos<\/h3>\n            <p>Um derramamento de \u00f3leo em 2014 na comunidade ind\u00edgena Kukama de Cuninico, no rio Mara\u00f1\u00f3n, assim como em mais de uma\n                d\u00fazia de outros desde ent\u00e3o, vieram do Oleoduto do Norte Peruano, constru\u00eddo na d\u00e9cada de 1970 para\n                transportar petr\u00f3leo bruto dos ent\u00e3o novos campos de petr\u00f3leo amaz\u00f4nicos do pa\u00eds pela Cordilheira dos\n                Andes at\u00e9 a costa do Pac\u00edfico. O oleoduto de 1.106 quil\u00f4metros era uma maravilha da engenharia na \u00e9poca,\n                mas em 2014 tinha envelhecido e estava corro\u00eddo. Uma ag\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o do governo determinou que o\n                oleoduto n\u00e3o havia sido inspecionado e mantido adequadamente.<\/p>\n\n            <p>Os dois campos de petr\u00f3leo \u2013 Bloco 192, originalmente chamado de 1AB, e o Bloco 8 \u2013 tamb\u00e9m s\u00e3o cruzados\n                por oleodutos antigos e cheios de polui\u00e7\u00e3o de derramamentos que nunca foram devidamente limpos. Os\n                campos t\u00eam suas ra\u00edzes em um boom do petr\u00f3leo que atingiu a Amaz\u00f4nia Peru na d\u00e9cada de 1970,\n                engolindo dezenas de pequenas comunidades que sofreriam as consequ\u00eancias ao longo do meio s\u00e9culo\n                seguinte.<\/p>\n\n            <p>Na ocasi\u00e3o, o governo peruano estava ansioso para competir com o vizinho Equador, onde a petrol\u00edfera\n                norte-americana Texaco come\u00e7ou a operar em 1967, e estabelecer seu limite territorial mais firmemente,\n                ap\u00f3s uma violenta guerra de fronteira. Na mesma \u00e9poca, uma crise energ\u00e9tica desencadeada por cortes na\n                produ\u00e7\u00e3o pela Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo levou as empresas petrol\u00edferas dos EUA a\n                buscarem outras fontes.<\/p>\n\n            <p>A Petroper\u00fa descobriu petr\u00f3leo na Bacia do Rio Corrientes em 1971 e a Occidental Petroleum, com sede nos\n                EUA, rapidamente seguiu o exemplo nas proximidades. A nova legisla\u00e7\u00e3o concedeu incentivos fiscais \u00e0s\n                empresas estrangeiras em troca da entrega ao Estado peruano de metade do petr\u00f3leo produzido, e quase uma\n                d\u00fazia obteve concess\u00f5es nos dois anos seguintes.<\/p>\n\n            <p>A maior parte do \u00f3leo, por\u00e9m, era petr\u00f3leo bruto, tornando-se caro para ser extra\u00eddo. O boom se esgotou e\n                a maioria das empresas estrangeiras se foi em meados da d\u00e9cada de 1970. A Occidental Petroleum assumiu o\n                Bloco 1AB e a Petroper\u00fa operou no Bloco 8, que inclu\u00eda uma fr\u00e1gil \u00e1rea \u00famida que hoje faz parte da\n                Reserva Nacional Pacaya Samiria.<\/p>\n            <div class=\"right-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Limpieza-San-Pedro.jpg\" width=\"400\" height=\"auto\">\n                <figcaption>Trabalhadores da comunidade de San Pedro, no baixo vale do Mara\u00f1\u00f3n, limpam um derramamento\n                    do oleoduto operado pela estatal Petroper\u00fa. Foto: Barbara Fraser<\/figcaption>\n            <\/div>\n\n            <p>Nos primeiros anos, quando a produ\u00e7\u00e3o era mais elevada, quase dois ter\u00e7os do petr\u00f3leo do Peru vinham dos\n                campos amaz\u00f4nicos de Loreto. Com o tempo, no entanto, isso diminuiu e, nos \u00faltimos anos, o oleoduto,\n                constru\u00eddo para transportar cerca de 100.000 barris por dia, operou com apenas um quarto de sua\n                capacidade.<\/p>\n            <p>Na d\u00e9cada de 1980, at\u00e9 mesmo o governo peruano reconheceu que o Bloco 1AB era um dos lugares mais\n                polu\u00eddos do pa\u00eds, seus ecossistemas estavam danificados ou foram destru\u00eddos por lix\u00f5es inadequadamente\n                protegidos, por derramamentos que nunca foram limpos e produziam \u00e1gua \u2014 a \u00e1gua quente, com alto teor de\n                sal e metais, que \u00e9 bombeada de po\u00e7os com o petr\u00f3leo \u2014 que simplesmente era despejada em rios e riachos.\n            <\/p>\n\n            <p>Como as concess\u00f5es de petr\u00f3leo mudaram de m\u00e3os, a responsabilidade pela limpeza se tornou uma quest\u00e3o de\n                acusa\u00e7\u00f5es, pois \u00e9 dif\u00edcil provar qual empresa estava operando o lote quando ocorreram casos individuais\n                de polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n            <p>O Bloco 1AB\/192 foi operado pela Occidental de 1971 a 2000; pela companhia argentina Pluspetrol de 2000 a\n                2015; e pela canadense Pacific Stratum, posteriormente Frontera Energy, de 2015 a 2021. No momento, o\n                bloco est\u00e1 ocioso, mas a estatal Petroper\u00fa disse que planeja oper\u00e1-lo com um parceiro estrangeiro.<\/p>\n\n            <p>A Petroper\u00fa operou o Bloco 8 at\u00e9 1996, quando a Pluspetrol o assumiu. A Pluspetrol, que hoje est\u00e1 sediada\n                em Amsterd\u00e3, declarou fal\u00eancia em dezembro, colocando em d\u00favida o futuro do bloco. Em seu an\u00fancio, a\n                empresa culpou a ag\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental do Peru por responsabiliz\u00e1-la pela polui\u00e7\u00e3o que\n                ocorreu enquanto outras empresas operavam o bloco.<\/p>\n\n            <p>As comunidades Achuar no Rio Corrientes processaram a Occidental Petroleum nos tribunais dos EUA em 2007\n                por danos ambientais, chegando a um acordo extrajudicial por uma quantia n\u00e3o especificada em 2015.\n                Outras comunidades processaram no Peru por danos ambientais e problemas de sa\u00fade, mas a polui\u00e7\u00e3o\n                persiste.<\/p>\n\n        <\/div>\n    <\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Mas quando a perfura\u00e7\u00e3o come\u00e7ou nos campos de petr\u00f3leo, os rios tornaram-se t\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAntes da companhia chegar, o rio estava limpo\u201d, disse Vargas. Mas ela se lembra de um final de tarde quando foi tomar banho no rio depois de passar o dia cuidando de suas planta\u00e7\u00f5es no calor tropical.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenti meu corpo pegajoso\u201d, disse ela. Ela tocou a l\u00edngua em sua pele. \u201cMeu corpo tinha sal por toda parte. Meu cabelo estava todo salgado.\u201d Ela encontrou um riacho com \u00e1gua limpa, onde poderia tomar banho para lavar o sal, mas ela e o marido perceberam que deveriam parar de beber a \u00e1gua do rio. Algumas pessoas cavaram po\u00e7os. Mas para quem n\u00e3o tinha riachos pr\u00f3ximos os rios eram a \u00fanica op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"gb-headline gb-headline-322034b5 gb-headline-text\"><strong>D\u00e9cadas de polui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Um oleoduto de 1.106 quil\u00f4metros \u2013 uma maravilha cara da engenharia na \u00e9poca, que se deteriorou com o tempo \u2013 acabou sendo constru\u00eddo para transportar \u00f3leo cru dos campos de petr\u00f3leo do norte da Cordilheira dos Andes at\u00e9 o porto de Bay\u00f3var, na costa do Pac\u00edfico, incluindo um ramal da aldeia de Nuevo Andoas, no rio Pastaza. Mas at\u00e9 a rede de oleodutos nos campos de petr\u00f3leo ser conclu\u00edda, no entanto, o petr\u00f3leo era transportado no curso do rio por barca\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<!-- TIMELINE INFOGRAFHIC-->\n<div class=\"magnific-side-container\">\n    <a class=\"image-popup-vertical-fit\" href=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/LINEA_portugues.gif\n\n    \" alt=\"Revista-Proceso-Se-nos-viene-el-oleoducto\" title=\"\">\n        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/LINEA_portugues.gif\n\n        \" width=\"400\" height=\"auto\">\n   <figcaption> Fontes: Perupetro; La Torre, L.; PUINAMUDT; El Comercio; Gesti\u00f3n; La Rep\u00fablica; Mongabay. Gr\u00e1fico: Ferm\u00edn Garc\u00eda<\/figcaption>\n    <\/a>\n<\/div>\n\n\n\n<p>\u201cAquele petr\u00f3leo levado pelas barca\u00e7as \u00e0s vezes derramava \u2013 aquilo derramava muito\u201d, disse Cariajano segurando as m\u00e3os a cerca de 30 cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia. \u201cO rio estava negro. As gar\u00e7as estavam cobertas de \u00f3leo. Elas n\u00e3o conseguiam voar, ent\u00e3o morriam. O peixe saltava e ca\u00eda em cima do \u00f3leo.\u201d Ningu\u00e9m explicou aos moradores que o petr\u00f3leo bruto e seus subprodutos eram t\u00f3xicos, ent\u00e3o as pessoas recolhiam os peixes e \u00e0s vezes coletavam \u00f3leo em recipientes, inserindo um pavio para fazer uma pequena l\u00e2mpada.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas d\u00e9cadas se passariam antes do Peru come\u00e7ar a implementar a legisla\u00e7\u00e3o ambiental e mais uma antes das empresas que operam os Blocos 192 e 8 reinjetassem a \u00e1gua produzida no subsolo, em vez de despej\u00e1-la no meio ambiente. Enquanto isso, bilh\u00f5es de barris de \u00e1gua salgada e contaminada foram bombeados para os rios e riachos. Somente em 2008, uma m\u00e9dia de 363.000 barris de \u00e1gua produzida <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0269749116321674\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">foram despejados<\/a> no meio ambiente por dia no Bloco 8 e uma m\u00e9dia de 576.000 por dia no Bloco 1AB\/192. Os danos causados \u200b\u200bpor derramamentos de petr\u00f3leo tamb\u00e9m persistiram, \u00e0s vezes por muito tempo depois de qualquer \u00f3leo vis\u00edvel ter sido limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os rios e os riachos s\u00e3o vitais para a vida cotidiana, s\u00e3o as <em>cochas<\/em> ou os lagos na Amaz\u00f4nia peruana que fornecem sustento aos moradores. \u00c0 medida que os rios se elevam durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa, a \u00e1gua \u00e9 impulsionada para os riachos e atrav\u00e9s da floresta de plan\u00edcie para as <em>cochas<\/em>, que servem de viveiros de peixes. Os peixes migrat\u00f3rios, como o curimbat\u00e1 (<em>Prochilodus nigricans<\/em>), o pacu (<em>Mylossoma duriventre<\/em>) e a cachala (<em>Pseudoplatystoma fasciatum<\/em>) aproveitam a abund\u00e2ncia de alimentos da floresta inundada e retornam ao rio quando a esta\u00e7\u00e3o chuvosa passa e as \u00e1guas recuam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esse fluxo e refluxo, que espalha sedimentos carregados de nutrientes por toda a floresta, tamb\u00e9m pode provocar contaminantes de derramamentos de \u00f3leo que nunca foram limpos.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia em que Cariajano retornou ao t\u00famulo da sua filha no cemit\u00e9rio coberto pela vegeta\u00e7\u00e3o, Llerson Fach\u00edn, o jovem <em>apu<\/em> ou o l\u00edder de Vista Alegre, pisava no solo seco e rachado ao redor de Cocha Montano. Outrora um importante pesqueiro para sua comunidade, o lago \u00e9 hoje apenas uma fra\u00e7\u00e3o de seu antigo tamanho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1100\" height=\"733\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Apu-Llerson-Fachin-en-Cocha-Montano.jpg\" alt=\"Apu-Llerson-Fachin-en-Cocha-Montano\" class=\"wp-image-2688\" srcset=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Apu-Llerson-Fachin-en-Cocha-Montano.jpg 1100w, https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Apu-Llerson-Fachin-en-Cocha-Montano-300x200.jpg 300w, https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Apu-Llerson-Fachin-en-Cocha-Montano-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1100px) 100vw, 1100px\" \/><figcaption>Llerson Fach\u00edn, um l\u00edder da comunidade Kichwa de Vista Alegre, pisa no leito seco do lago conhecido como Cocha Montano no Bloco 192. Foto: Barbara Fraser<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cEste lago tem uma hist\u00f3ria muito triste\u201d, disse ele. \u201cDesde a d\u00e9cada de 1980, ap\u00f3s um derramamento, o lago vem secando. Estamos perdendo nossos lagos, que s\u00e3o muito importantes para n\u00f3s.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Os moradores da comunidade se lembram do dia em que a \u00e1gua de Cocha Montano ficou negra por causa de um derramamento em um po\u00e7o rio acima. O \u00f3leo cobriu o lago e fluiu para o Rio Tigre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMuitos peixes morreram aqui. A superf\u00edcie estava negra, completamente preta, e os peixes boiavam\u201d, disse Fach\u00edn, acrescentando que os contaminantes da \u00e1rea ao redor do po\u00e7o de petr\u00f3leo ainda s\u00e3o levados correnteza abaixo para o lago quando chove. Nenhuma das empresas que operaram no campo de petr\u00f3leo o limpou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNada foi reparado. Apenas a natureza o limpou \u2013 a \u00e1gua, a chuva, foi isso que fez a limpeza. \u00c0 medida que a \u00e1gua subia e descia,&nbsp; [o \u00f3leo] foi retirado pouco a pouco\u201d, disse ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre as opera\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, acrescentou: \u201cTer essas coisas significou nada mais do que morte \u2013 morte e perda de nossos recursos naturais da floresta e de toda fauna, e perdemos tamb\u00e9m muitas vidas humanas. N\u00e3o posso chamar isso de progresso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"gb-headline gb-headline-9a7dfe61 gb-headline-text\"><strong>Enlutados pelas mortes dos lagos e das crian\u00e7as<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Mas a morte de Cocha Montano vai al\u00e9m da devasta\u00e7\u00e3o ambiental. Tamb\u00e9m marca a ruptura da rela\u00e7\u00e3o entre a comunidade Kichwa e o mundo natural com o qual suas vidas est\u00e3o inextricavelmente entrela\u00e7adas, no qual as florestas, os rios, os peixes e os animais e todos os seres vivos t\u00eam <em>madres,<\/em> literalmente \u201cm\u00e3es\u201d \u2013 esp\u00edritos que nutrem e cuidam deles e que deixar\u00e3o os humanos desamparados se forem maltratados.<\/p>\n\n\n\n<figure id=\"attachment_2664\" aria-describedby=\"caption-attachment-2664\" style=\"width: 377px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2664\" src=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Julia-Chuje-200x300.jpg\" alt=\"Julia-Chuje\" width=\"387\" height=\"581\" srcset=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Julia-Chuje-200x300.jpg 200w, https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/Julia-Chuje.jpg 733w\" sizes=\"auto, (max-width: 387px) 100vw, 387px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2664\" class=\"wp-caption-text\">Julia Chuje, da comunidade de Remanente, est\u00e1 entre as mulheres Kichwa que enterraram crian\u00e7as em cemit\u00e9rios ao longo do Rio Tigre. Foto: Juanjo Fern\u00e1ndez<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Cada riacho, cada lago tem sua <em>madre<\/em>\u201d disse Julia Chuje Ru\u00edz, prima mais velha de Cariajano. \u201cAlgumas s\u00e3o jib\u00f3ias, algumas s\u00e3o jacar\u00e9s, algumas s\u00e3o raias, algumas s\u00e3o como ja\u00fas, mas dos grandes. Algumas s\u00e3o on\u00e7as. Cada zona tem sua <em>madre.<\/em> Como o rio tamb\u00e9m \u2014 toda lagoa tem sua <em>madre<\/em>. Mas quando chega [a contamina\u00e7\u00e3o], a <em>madre<\/em> precisa partir. Ou morre ou parte. Aonde ela ir\u00e1? E o lago seca. O mesmo aconteceu com Montano.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a mancha oleosa banhou o rio seguindo a correnteza, enegrecendo o lago e desembocando no Rio Tigre, \u201cum jacar\u00e9 gigante morreu ali. Um enorme jacar\u00e9 saiu do lago. Passou por aqui, acima de Vista Alegre\u201d, disse Julia Chuje, gesticulando para longe. \u201cH\u00e1 uma lagoa ali no rio. Um enorme jacar\u00e9 passou por l\u00e1. Saiu da cocha e talvez tenha morrido.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E o lago secou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMontano \u00e9 um grande riacho com afluentes menores\u201d, acrescentou ela. \u201cEles tamb\u00e9m secaram. Porque sua <em>madre<\/em> partiu. Sua<em> madre<\/em> morreu. Quem vai cuidar deles? Eles tamb\u00e9m morreram. A cocha secou. O riacho secou. N\u00e3o restou nada.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Julia Chuje tinha 13 anos quando os primeiros petroleiros chegaram a Vista Alegre limpando as linhas s\u00edsmicas, que mudariam sua vida e a de seus vizinhos de maneiras que nem podiam imaginar. \u201cO que a empresa veio fazer?\u201d,&nbsp; questiona. \u201cAparentemente, veio para acabar com a gente. Tantas mortes e quem vai pagar? Quem vai pagar pelo mal que foi feito?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma investiga\u00e7\u00e3o abrangente foi feita, ent\u00e3o ningu\u00e9m sabe realmente o que matou a maior parte de uma gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as em Vista Alegre, juntamente com alguns dos jovens recrutas em um posto militar pr\u00f3ximo, em um per\u00edodo bastante curto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Alvarez, que hoje chefia o escrit\u00f3rio de biodiversidade do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente do Peru, trope\u00e7ou no cemit\u00e9rio cheio de pequenas sepulturas no in\u00edcio dos anos 1990, quando trabalhava na bacia do Tigre. De acordo com especialistas que ele consultou na \u00e9poca, os sintomas eram consistentes com hepatite \u2013 provavelmente trazidos para a \u00e1rea por trabalhadores dos campos de petr\u00f3leo e possivelmente exacerbados pela exposi\u00e7\u00e3o a contaminantes no meio ambiente. As v\u00edtimas foram enterradas nos arredores do cemit\u00e9rio comunit\u00e1rio e as fam\u00edlias se mudaram. Alguns se estabeleceram do outro lado do rio, a uma curta viagem de barco, onde hoje est\u00e1 a Vista Alegre, e alguns na comunidade vizinha de Remanente ou em outras aldeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos a floresta se apropriou das sepulturas, mas n\u00e3o consegue apagar a lembran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O cemit\u00e9rio \u201cest\u00e1 abandonado, porque \u00e9 longe para vir\u201d, disse Cariajano de p\u00e9 entre as \u00e1rvores. Al\u00e9m de sua filha rec\u00e9m-nascida, mais tarde perdeu outros dois filhos, que est\u00e3o enterrados n\u00e3o muito distante dali.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeus filhos morreram vomitando sangue\u201d, disse ela. \u201cEstou triste pelos meus filhos. At\u00e9 as antas morreram bebendo \u00e1gua daquele riacho. Essa contamina\u00e7\u00e3o ainda existe. O governo n\u00e3o se importa. Eles est\u00e3o em paz \u2013 eles comem, bebem, seus filhos est\u00e3o bem e estamos ferrados aqui com essa contamina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela descansou a m\u00e3o na pequena l\u00e1pide de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esta \u00e9 minha primeira filha&#8221;, disse ela. \u201cEla estaria com 35 anos hoje.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>Nota do editor: Lindaura Cariajano<\/em> <em>Chuje morreu de c\u00e2ncer de pele em 2019.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"HUELLAS DE PETR\u00d3LEO LOTE 192 PORTUGU\u00c9S\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wkUYzHwBNtw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n<\/div><\/div>\n\n<div class=\"gb-container gb-container-29233269 alignfull\" id=\"3-stories-cards\"><div class=\"gb-inside-container\">\n\n<!--3 STORIES CARDS-->\n<div class=\"time-cards-container\">\n\n    <div class=\"card\">\n        <a href=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/pt\/um-legado-de-promessas-quebradas\/\">\n            <div class=\"item\" style=\"background-image: url('https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/card-2.jpg')\">\n            <div class=\"title\">\n                    <h4>Um legado de<br>promessas quebradas<\/h4>\n                    <button>Continue<\/button>\n                <\/div>\n            <\/div>\n        <\/a>\n    <\/div>\n\n    <div class=\"card\">\n        <a href=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/pt\/cascata-de-consequencias\/\">\n            <div class=\"item\" style=\"background-image: url('https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/card-1.jpg')\">\n                <div class=\"title\">\n                    <h4>Cascata<br>de consequ\u00eancias<\/h4>\n                    <button>Continue<\/button>\n                <\/div>\n            <\/div>\n        <\/a>\n    <\/div>\n\n    <div class=\"card\">\n        <a href=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/pt\/um-futuro-sem-petroleo\/\">\n            <div class=\"item\" style=\"background-image: url('https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/wp-content\/uploads\/card-3.jpg')\">\n                <div class=\"title\">\n                    <h4>Loreto pode planejar<br> um futuro sem \u00f3leo?<\/h4>\n                    <button>Continue<\/button>\n                <\/div>\n            <\/div>\n        <\/a>\n    <\/div>\n\n<\/div>\n<!--END STORIES' CARDS-->\n\n<\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um legado depromessas quebradas Um homem se encontra em meio \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o encharcada de \u00f3leo ap\u00f3s um derramamento de petr\u00f3leo na comunidade de San Pedro, no baixo Rio Mara\u00f1\u00f3n. Foto: Ginebra Pe\u00f1a Por Barbara Fraser e Marilez Tello Compartilhar: Lindaura Cariajano Chuje se lan\u00e7ou \u00e0 margem do rio e avan\u00e7ou pela floresta seguindo uma trilha &#8230; <a title=\"Um legado de promessas quebradas\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/pt\/um-legado-de-promessas-quebradas\/\" aria-label=\"Read more about Um legado de promessas quebradas\">Read more<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-3585","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized-pt"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Um legado de promessas quebradas - Traces of oil in the peruvian amazon<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/inquirefirst.org\/montanasyselva\/proyectos\/traces-of-oil\/pt\/um-legado-de-promessas-quebradas\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Um legado de promessas quebradas\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Na d\u00e9cada de 1970, uma descoberta de petr\u00f3leo na regi\u00e3o de Loreto, no nordeste do Peru, foi anunciada como o caminho para o desenvolvimento. 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